A China responde por 92% das compras externas de equipamentos e componentes para geração eólica e solar pelo RN desde 2021 |Foto: Alex Régis
Entre janeiro de 2021 e junho de 2026, o Rio Grande do Norte importou US$ 830,5 milhões em insumos para as energias solar e eólica. Os equipamentos partiram dos oito principais mercados fornecedores no exterior, sendo 92% desse total (US$ 768,2 milhões) vindos da China. Considerando apenas o primeiro semestre de 2026, a importação de materiais de energia solar e eólica pelo RN somou US$ 51,1 milhões, o que representa uma aumento de 95% em relação aos US$ 26,2 milhões importados no mesmo período do ano passado.
Os dados da Análise da Balança Comercial do RN – 2020 a 2026 (1º semestre), do Sebrae/RN, mostram que, no primeiro semestre de 2026, a China segue com ampla vantagem como a principal origem desses insumos, somando US$ 43,5 milhões, o equivalente a 85,1% do valor total registrado no período.
O forte crescimento da importação de insumos do setor de renováveis pelo RN (incluindo grupos eletrogêneos e aerogeradores; partes de geradores, como pás e naceles; e dispositivos semicondutores, inclusive módulos fotovoltaicos) no período analisado permite observar que, embora o estado figure entre as maiores potências na produção de energia limpa no país, essa representatividade ainda não se converteu em uma indústria local capaz de atender às demandas por equipamentos nesse mercado.
A alta dependência da China é observada não apenas pelo fato de que mais de oito em cada dez
dólares importados pela cesta no RN vieram daquele país nos primeiros seis meses do ano, mas também pelos dados que consideram outros mercados. No mesmo período, a Índia e a Espanha, que também se destacam como importantes fornecedores para a cadeia de renováveis do estado, somaram US$ 4,6 milhões e US$ 2,2 milhões em vendas, respectivamente, com maior peso nos módulos fotovoltaicos.
Sérgio Azevedo, presidente da presidente da Comissão Temática de Energias Renováveis (Coere) da Federação das Indústrias do estado (Fiern), avalia que o cenário mostra a ausência de uma indústria local que possa atender às demandas do próprio mercado, mas destaca que é preciso estratégia e foco para estruturar um cadeia que possa suprir as necessidades de cada setor.
“Não faz sentido imaginar que vamos produzir aqui todos os equipamentos de um parque eólico ou solar ou competir, no curto prazo, com grandes polos mundiais”, diz. “Há mercado em componentes, estruturas, equipamentos elétricos, engenharia e outros, mas vejo uma oportunidade ainda maior: usar nossa energia como vantagem competitiva para atrair atividades eletrointensivas. Data centers, armazenamento, hidrogênio e derivados, fertilizantes verdes são um exemplo claro”, completa.
Para Sérgio Azevedo, diante dos cortes de geração de energia (curtailment) registrados no estado, atrair novos grandes consumidores também passa a fazer parte da solução para o setor.
Darlan Santos, presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), afirma que, ao mesmo tempo em que o estado se consolidou como parque gerador de energias, não conseguiu atrair fabricantes. “Os gargalos nos modais de transporte do estado são um fator de desinteresse para instalação de fábricas, dada a dificuldade no escoamento para as outras regiões do país”, aponta.
Setor solar é mais dependente de insumos da China
Mario Gonzalez, professor da UFRN e especialista em energias renováveis, explica que a dependência maior das importações da China para insumos ocorre em relação ao setor solar. Isso acontece, segundo ele, porque importantes empresas de fabricação de componentes foram adquiridas pelo país asiático, que os fabrica e distribui para o mundo a preços bastante competitivos. Mas existem outros aspectos para a falta de desenvolvimento dessa cadeia no RN.
“O setor eólico, além de contar com legislação no Brasil, possui benefícios, com taxas menores para empréstimos junto ao BNDES, que obriga os parques a utilizar grande parte de componentes nacionais. Isso acaba favorecendo a produção dos insumos em todo o país. No caso do setor solar, falta legislação e as poucas fábricas do país estão em Santa Catarina, São Paulo, Bahia e Ceará”, aponta o especialista. Segundo ele, tornar o RN atrativo para a cadeia será difícil sem legislação.
Para a indústria eólica, apesar de um cenário mais avançado, ainda são necessários importantes ajustes, segundo o professor. “Os primeiros parques começarão, em breve, a trocar equipamentos, o que é uma oportunidade para o desenvolvimento de fábricas no estado. Mas isso está condicionado a questões de infraestrutura, como as condições do Porto de Natal e o projeto do Porto-Indústria Verde”, diz Mario Gonzalez.
Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec) do RN explicou que, dentre as estratégias para tornar a cadeia de insumos atrativa no estado, está o Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial (Proedi), que atua com concessão de crédito presumido de ICMS de até 95% sobre o saldo devedor, observados os critérios e requisitos estabelecidos na legislação estadual.
“O Governo do Estado também atua na qualificação da estratégia de atração de investimentos. Este mês foi realizado o Workshop de Portfólio Avançado de Projetos de Investimento. A capacitação trabalhou ferramentas voltadas à estruturação de projetos de investimento capazes de posicionar as potencialidades locais de maneira estratégica diante de investidores estrangeiros, transformando oportunidades econômicas em propostas concretas de atração de investimentos”, escreveu a Sedec em nota.
A Secretaria ainda explicou que o RN está inserido nas discussões do Plano Nacional de Logística 2050, que projeta cerca de R$ 1,22 trilhão em investimentos públicos e privados em transportes no longo prazo. “Para o RN, o planejamento contempla projetos como a implantação da ferrovia Natal–Macau, a ampliação da capacidade dos complexos portuários de Natal e Areia Branca/Macau e intervenções em rodovias federais”, disse a pasta.
O estímulo à indústria de insumos para as energias renováveis é necessário diante do cenário de expansão do setor. O professor e pesquisador do IFRN, Wagner Alves, aponta que, especialmente a energia solar, tem muito espaço para crescer. “Ela está em franca expansão, pois todo o estado é passível da instalação de parques para essa finalidade”, explicou.
Wagner Alves é um dos autores de um estudo que identificou 48 empreendimentos solares em operação no RN, 870,2 MW em construção e 8.854 MW com construção ainda não iniciada.
Capacidade de estruturar a cadeia
Já Williman Oliveira, presidente da Associação Potiguar de Energias Renováveis (Aper), avalia que o RN tem capacidade de criar uma indústria para abastecer o próprio mercado, mas falta poder econômico e estrutura. “Não há incentivo e a carga tributária é altíssima. Como escoar com a infraestrutura de portos e ferrovias que temos e com a precarização do sistema rodoviário?”, questiona.
A presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologia (ABEEólica), Elbia Gannoum, analisa que o padrão de volume de importações do RN é semelhante ao de outros estados do Nordeste, e se repete, especialmente, em equipamentos e componentes de maior complexidade tecnológica e valor agregado. “O estado tem espaço para a produção desses equipamentos, mas o mercado consumidor precisa sinalizar a necessidade para isso”, fala.
O vice-presidente de Cadeia Produtiva da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Daniel Pansarella, disse ser natural que estados nordestinos com forte implantação de parques solares e eólicos apresentem importações relevantes de módulos, inversores, aerogeradores, componentes elétricos e outros equipamentos. Ele destacou ainda que a Balança Comercial registra a entrada do equipamento, mas não captura toda a atividade econômica realizada depois que ele chega ao país ou ao estado, algo a ser considerado.
"Um módulo ou inversor importado pode alimentar a cadeia local. Portanto, importação e geração de valor local não são conceitos excludentes. O desafio é fazer com que a implantação de projetos gere uma cadeia de fornecedores mais profunda, recorrente e competitiva. Para isso, precisamos de previsibilidade regulatória e de mercado, financiamento adequado, logística, expansão de transmissão e distribuição, qualificação profissional, pesquisa e programas de desenvolvimento de fornecedores”, afirma Daniel Pansarella.
Ainda de acordo com ele, o RN, ao passo que se consolidou como referência na implantação de empreendimentos renováveis, vem fortalecendo uma rede de pequenos negócios, instituições e profissionais especializados que podem contribuir com a cadeia de fornecedores.
Lorena Roosevelt, gerente do Polo Sebrae de Energias Renováveis, explicou que as micro e pequenas empresas potiguares já atuam em instalações elétricas, engenharia, obras civis, montagem, transporte, logística, segurança, inspeção, monitoramento e manutenção da cadeia.
“Na geração solar distribuída, destacam-se as integradoras responsáveis pelo projeto, instalação, homologação e pós-venda dos sistemas. Ainda não existe, porém, um indicador consolidado sobre o percentual dos contratos dos parques eólicos e solares executado por MPEs locais, mas as oportunidades envolvem operação e manutenção, inspeção de aerogeradores e módulos, termografia, monitoramento remoto, retrofit, gestão de ativos, cibersegurança, armazenamento, reciclagem e infraestrutura para veículos elétricos”, fala Lorena Roosevelt.
Insumos Solar/Eólica - Principais origens das importações pelo RN
Tribuna do Norte